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vidro

zycie-jest-dzisiaj

era a mesma pergunta que haviam feito no mínimo cinco vezes, desde as três da tarde. queriam saber se ela era assim mesmo ou se aquela era uma situação excepcional. por acaso estava com cara de que, para ficarem perguntando? deu mais um gole e sorriu exageradamente. tudo era tão superficial que ela podia afogar-se na profundidade do copo que segurava.  talvez estivesse tentando fazer isso, um gole de cada vez.

observou o copo. podia perder-se na forma, na textura que fazia contato com a sua pele, na poesia da sílica que é enfornada, quase fundida até virar um material incandescente para então ser resfriada e se transformar naquele pedaço de vidro que apenas esperava ser quebrado.

ela gostava da parte incandescente da história, era a garota mais triste que já segurou um… paft, estilhaços molhados. era esperado, era sabido, tanto quanto seu jeito desastrado era conhecido. pensou se ela era mesmo desastrada e nas perguntas permaneciam sem resposta: você é sempre assim? desde que horas você está aqui?

sequer lembrava quem era de verdade, ou normalmente, se é que um dia era alguém, para dizer agora que foi, e então explicar quem era esta pessoa que supostamente deveria ser; deveria ter sido. engraçado. se perdia nos tempos verbais tentando explicar o tempo que passou, enquanto perdia o tempo passando.

não sabia mais que horas eram. excelente, objetivo alcançado. então é essa a sensação?

situação excepcional… a sua vida inteira poderia ser considerada uma, se por definição isso não a colocasse justamente no mais óbvio lugar-comum, o pior dos lugares em que podia estar. é preciso rir quando se percebe isso. e ela riu, muito. por três vezes esteve na beira do precipício prestes a cair, mas o maior absurdo de todos era ter feito de si própria a personagem principal desse clichê que era a sua situação nada excepcional.

não teria como saber antes, não existia uma cartilha informando o quanto próximo estava de fundir completamente. seu corpo era puro material incandescente, agora finalmente resfriando. apenas esperando para vidrar em algo e, como sabia aconteceria, partir-se em mil pedaços novamente.

estava começando a gostar desse choque, era infinitamente mais interessante e prazeroso do que tempestades ou materiais incandescentes. nunca se sabe quando e como o vidro irá estourar, e o desenho que os cacos formariam no chão. diversão pura ou loucura, não importava. ela ria muito: era o terceiro copo que quebrava naquela noite.

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