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vestígios de curiosidade

ana beatriz era mulher de olhos escuros e possuía uma qualidade que era por demais interessante: curiosidade, a mesma que matou o gato e engravidou a menina. aquela curiosidade, presente no nascimento e na morte, responsável por determinar o quanto é que se vê dessa vida, do momento em que as condições para a própria existir são satisfeitas, até aquele em que elas desaparecem por completo.

ela queria ver tudo, engolir o mundo e sugar a tal essência da vida. era quase que uma Perséfone as avessas, sentia-se presa na superfície da realidade e ansiava por algo que a arrastasse para as profundezas de um submundo visto apenas em seus sonhos quentes como o inferno. e não apenas isso, desejava ainda ser levada até as mais extasiantes alturas para conhecer o paraíso nos céus. talvez fosse muito para apenas uma vida, mas ela não sabia e portanto não desistia.

a maior busca de ana beatriz era em seu interior. pela liberdade de agir em benefício desse impulso egoísta, pelo alívio de parar de resistir e finalmente entregar-se as sensações que acometiam o seu ser. e era a curiosidade, esse desejo indiscreto pelo saber e pelo sentir, que inflamava seus pensamentos e despertava seu corpo para os movimentos que a levariam a alcançar esse objetivo caprichoso.

coragem não lhe faltava para render-se ao instinto que pulsava e explodiria em seu peito se nada fizesse a respeito. sem pudores ela trocou todos seus filtros morais por um filtro vermelho. apenas esperava por um olhar incandescente que a derretesse por completo e correspondesse em dimensão e profundidade aos seus olhos de esfinge: decifra-me ou te devoro.

a graça de ana beatriz era que ela sabia a medida exata da extravagância a qual estava disposta se envolver, e isso tornava tudo um tanto mais fácil em sua própria cabeça. mas a insegurança e a leviandade dos outros eram presenças constantes e incômodas nesses encontros casuais que a aborreciam profundamente. pois era óbvio para qualquer bom entendedor que ela não queria ser decifrada…

sua própria postura pretensiosamente misteriosa revelava o quanto ela desejava esquecer; deixar para trás os segredos que carregava, desprender-se daquele corpo e perde-se no de outrem; de preferência num longo e intenso processo em que os seus sentidos fossem totalmente desregrados e desvirtuados em algo que resultasse em nada menos do que transcendência; poesia em sua mais pura forma… tal idéia parecia muito simples na teoria.

mas na realidade, aqueles que tentavam encarar o enigma de ana beatriz não costumavam ser bons entendedores. os olhos deles continham apenas um desejo vulgar, isentos da curiosidade ardente que ela almejava retribuir; ou eram inundados por um romantismo enjoativo e doentio que lhe era pouco apreciável. esses eram vítimas incautas e comuns daqueles olhos de esfinge. consentiam com o apetite voraz daqueles lábios míticos apenas para sofrerem estranguladas pela própria tentação.

ana beatriz refletia sobre o significado disso e relação com as origens do próprio nome. mulher viajante, cheia de graça e que traz felicidade. seria a escolha feita em seu nascimento um sopro do destino a condená-la a uma vida de insatisfação, distribuindo alegria e prazeres aos outros que cruzavam seu caminho? esse questionamento e o vazio que ele representava a consumia de tal maneira que assim como a criatura mitólogica grega, se nada fosse feito, cometeria suicídio atirando-se de um precipício ou devoraria-se por inteiro.

no entanto o seu foco de atenção mudava por um breve período, quando ana beatriz encontrava olhos negros como a noite que respondiam corretamente ao seu enigma. eram olhos que possuiam um brilho inapagável, reflexo de um fogo insaciável e  inquietante a queimar em alguém que, por dentro, era um pouco assim como ela. e quando tamanha conexão se estabelecia com tão breve olhar, poucas palavras eram necessárias para descrever a necessidade que crescia e tornava urgente o encontro com aquele outro corpo.

se poesia era composição, movimento, inspiração, elevação de idéias, encanto, beleza, graça.. os sulcos e as formas convexas desenhadas como arte naqueles lençóis, que possuiam tantos fios quanto histórias, eram os versos escritos por ana beatriz e o seu desconhecido naquela única noite de amor eterno. porque ele, assim como todos os outros que eram assim como ela, iam embora na manhã seguinte para dificilmente voltar. então restava-lhe apenas os vestígios daquilo que um dia aconteceu, e daquele que se foi.

ana beatriz encontrou o dele enquanto arrumava o quarto. observou o objeto por alguns instantes, absorvendo todas as lembranças que ele trazia. com um sorriso satisfeito acrescentou o botão de camisa na pequena coleção que guardava na caixinha ao lado da cama. nela, descansavam uma folha de jornal, um lenço estampado, um brinco cujo par havia se perdido, uma fotografia, um papel rabiscado…

ela guardava os vestígios inusitados de suas demonstrações casuais de curiosidade como um lembrete da singularidade de cada um dos seus encontros. esse prazer secreto abrandava o incêndio que sentia dentro de si, e na medida que sua coleção crescia sua vida se tornava mais interessante e completa. um passo de cada vez, ela caminhava para mais longe daquele precipício para se tornar mais real, menos um enigma de ficção.

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